Ovos de Páscoa Crédito: Millena Marques/CORREIO
Foi só o Carnaval se despedir para que as fantasias e acessórios dessem lugar às próximas estrelas nos supermercados e varejistas: os ovos de chocolate. Faltando mais de um mês para o feriado da Páscoa (que este ano cai no dia 5 de abril), os ovos já marcam presença nas prateleiras cidade afora. E este ano eles chegam mais caros, com aumentos que passam de 26%.
Os dados são de um levantamento do portal Seu Dinheiro, que mostra encarecimento em alguns dos ovos de Páscoa mais populares no país. O Sonho de Valsa de 277g, da Lacta, foi o mais afetado, com um aumento de 26,64% (de R$ 45,00 para R$ 56,99). Em seguida está o Crocante de 227g, da Garoto, cujo preço cresceu 24,98% (de R$ 48,00 para R$ 59,99). A única variação negativa foi a do Tortuguita Baunilha de 120g, da Arcor, que ficou 0,02% mais barato (de R$ 43,00 para R$ 42,99).
Conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial da inflação no país, houve uma alta de 24,77% em 12 meses para chocolates em barra e bombons, reforçando a tendência de encarecimento.
O aumento nos preços reflete o choque histórico no preço do cacau em 2024, que aconteceu após plantações serem devastadas pelo fenômeno El Niño em países como Gana e Costa do Marfim, responsáveis por 60% da produção mundial. Doenças fúngicas, envelhecimento das lavouras e eventos climáticos extremos associados ao El Niño reduziram a oferta global.
“O mercado ficou com um déficit de 700 mil toneladas. Mas não é só o cacau que pesa na formação dos preços: outros insumos como leite, açúcar, frete (uso de caminhões frigoríficos, já que se trata de carga perecível) e variação do dólar devem ser levados em conta. Cada empresa tem sua política de preços. A indústria acompanha essas oscilações naturais do mercado e cria alternativas de venda de produtos para todos os gostos e adaptadas às várias faixas de consumo”, diz, em nota, a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab).
Dois anos depois, o cenário é de transição. Isso porque os preços elevados estimularam aumento de investimento e expansão produtiva em países como Costa do Marfim, Equador e Brasil. É o que explica Ahmed El Khatib, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).
“O Brasil, por exemplo, vem recuperando produtividade na Bahia e expandindo no Pará. Com preços ainda historicamente elevados, embora abaixo do pico, a rentabilidade do produtor melhorou significativamente. Portanto, para quem conseguiu manter produção, 2025/2026 tende a ser um período de receita elevada. No entanto, essa recuperação vem acompanhada de maior volatilidade e incerteza climática. Assim, o cenário é moderadamente positivo no curto prazo para produtores eficientes, mas estruturalmente desafiador no médio prazo”, afirma.
Para quem se pergunta o motivo dos ovos de Páscoa tomarem conta das gôndolas das lojas com tanta antecedência, Ahmed traz a resposta em três razões principais: estratégia comercial, diluição logística e gestão de fluxo de caixa.
Para não abrir mão do doce
Quem já está sofrendo com o aumento, mas não abre mão do chocolate na época mais doce do ano, tem algumas alternativas. A primeira, que já se tornou realidade em muitas casas, é substituir o ovo de Páscoa por formatos mais tradicionais de chocolate, como as barras e as caixas de bombom, que resultam num custo menor por gramatura para o consumidor.
“Os ovos de Páscoa são naturalmente mais caros em termos de preço por grama de chocolate, pela própria sazonalidade, pelo aumento da demanda nessa época. Isso cria uma alta de preços que faz com que outras formas de chocolate sejam mais competitivas para o consumidor”, diz o economista Marcelo Ferreira.
Outra possibilidade é fugir das marcas mais famosas e priorizar a produção local. “[Por serem] mais conhecidas em função dos custos e até mesmo de marketing e licenciamento, as marcas maiores têm preços mais elevados para ovos de chocolate. Então, de repente, prestigiar aquele amigo, aquele parente que está investindo nessa produção artesanal é um caminho para conseguir consumir ovos de chocolate a preços menores”, afirma.
Cacau em queda
A alta dos preços de ovos de chocolate acontece ao mesmo tempo que a cotação do cacau despenca. Dados da Organização Internacional do Cacau (ICCO) mostram que a indústria deve acabar 2026 com um superávit global estimado em cerca de 200 mil toneladas, com o aumento da oferta no momento em que o setor se recompõe da crise de 2024.
Na Bahia, há um ano, a arroba do cacau em Ilhéus custava em média R$ 803,69. Hoje, o valor médio é de R$ 238,19, de acordo com o painel de cotações da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb).
Para Adilson Reis, o maior desafio do mercado de cacau atualmente é conseguir essa retomada. “Se o chocolateiro compra com antecedência, ele vai comprar produtos a preços muito inferiores até do que aqueles que eles adquiriram no ano passado. A relação de preço de bolsa hoje, preço de produto derivado é muito mais baixa do que estava há um ano. Então dessa forma eu acho que já fica bastante atraente para que os chocolateiros comprem, demandem”, avalia.
Mesmo com uma possível acomodação nos preços internacionais, é difícil que os preços voltem aos níveis pré-choque, analisa o coordenador do FECAP, Ahmed El Khatib, uma vez que “custos estruturais, energia, logística, exigências ambientais e concentração industrial, continuam elevados”.
“Na minha opinião a Páscoa deste ano de 2026 é reflexo direto de um choque global de oferta de cacau que elevou preços de forma histórica. O consumidor sente o impacto com defasagem, enquanto o produtor vive um momento de rentabilidade maior, mas sob risco climático e regulatório. Se o ciclo de superávit se confirmar, 2027 pode marcar início de acomodação, mas não necessariamente de queda expressiva nos preços finais”, diz.
O que define o preço de um ovo de Páscoa?
“Do ponto de vista do varejo, antecipar a exposição amplia o ciclo de vendas e dilui o impacto de um produto altamente sazonal, reduzindo risco de encalhe e melhorando o giro de estoque. (...) Além disso, em um ambiente de renda pressionada, oferecer o produto mais cedo permite parcelamento no cartão e melhor planejamento do consumidor, o que sustenta volume mesmo com preços mais altos. Há ainda o fator marketing: a Páscoa representa cerca de 25% a 30% do faturamento anual de chocolates no Brasil”, diz.
“Esses preços se formam naturalmente a partir do preço da amêndoa de cacau no mercado internacional. E o parâmetro exato seria no momento que o chocolateiro realiza a compra para fazer os ovos. Isso eu diria que em torno de oito ou 10 meses de antecedência, às vezes até com um ano. Mal acaba uma Páscoa, eles já estão comprando para a próxima Páscoa. Como no ano passado eles compraram num momento de efervescência no mercado, de alta de preço de produtos, esses repasses estão vindo aí agora”, explica o analista de mercado Adilson Reis.
O economista traz ainda uma terceira alternativa: comprar os ovos um tempinho depois do domingo de Páscoa, quando os preços tendem a cair.
Por Bahia Notícias
